Tradução

segunda-feira, 25 de junho de 2018

MEMÓRIAS DA CONCEPÇÃO - Capítulo VI do Livro Do Divã à Espiritualidade: ATH - Abordagem Transdisciplinar Holística em Psicoterapia


            _Dê-me sua mão! Deixe-se conduzir por essa espiral! Induzi, ao mesmo tempo em que estabelecia uma âncora com a realidade, tocando levemente sua mão, em sinal de acompanhamento.
_Estou suspensa no ar... Não, no éter... Estou sem peso, sem temperatura... Neste momento, sou pura e plena consciência... Olhando do alto, vejo uma forma arredondada, ovalada... Como uma espiral de energia... A mesma espiral que dá origem às estrelas e ao cosmos... É o princípio da vida... O que eu vejo é um útero, ele está dentro da barriga de uma mulher... Ela vai ser minha mãe... Ela está deitada em uma cama, à noite, ao lado de um homem... Ele vai ser meu pai... Eles estão no quarto... A cama onde estão deitados é de madeira escura, reta... É um móvel simples. O quarto é simples, tem cortinas nas janelas, de um tecido pesado,parece aveludado... A cortina não combina com a simplicidade do quarto... A janela fica à esquerda... As paredes são claras... A porta fica à direita e está fechada... O chão é de tacos encerados... Lençóis brancos, bordados em ponto cheio, com linha azul... Tem um monograma bordado... São dois “as” entrelaçados... São as iniciais dos nomes deles: Alcides e Amélia. Enquanto eu percebo essas coisas, o meu corpo vibra... Ele é d épura energia...
Lá embaixo, na cama, o homem está deitado de costas para a mulher... Ela está com a perna direita apoiada sobre a perna direita dele... O braço direito dela passa por baixo do braço direito dele, rodeando-lhe a cintura...
A mão direita dela, agora, toca o genital dele... Ele fica excitado... Ele se vira para ela... e a olha nos olhos... Eles sentem amor um pelo outro... Eles se amam intensamente, e começam a ter relações sexuais...
O meu corpo vibra muito. É como se eu estivesse sendo puxada para baixo... Lá embaixo há uma bolinha... É uma velocidade fantástica!... É como se eu estivesse descendo, na espiral, em direção à bolinha... Descendo, descendo, descendo... É uma bolinha tão pequenininha!... Eu agora estou na bolinha... Vibrando... Vibrando... Na bolinha... É um óvulo...
Agora estou dentro de um túnel, redondo, quentinho, meio rosado... Em sentido contrário, vem uma bolinha diferente, de forma ovalada, com uma cauda ondulada... Tem outros, muitos outros... Mas esses outros não são importantes... Só aquele... Tenho na minha energia uma chave, uma informação, um código... Metade de um código... A outra metade está nesse outra bolinha... Aí, então, descubro que a outra parte da minha energia... A minha outra metade... Está nessa bolinha... Eu serei uma pessoa inteira quando as duas metades se unirem...
Estou no meio da bolinha... Tem muitas outras bolinhas querendo entrar, mas a única que tem a chave da porta é aquela que despertou a minha atenção... Ela entra com tanta facilidade!... A porta está se fechando... E nenhuma outra bolinha poderá entrar... Somente esta... As outras bolinhas que ficaram lá fora vão morrer... Vão se desmanchar...
Agora eu mesma estou me multiplicando em muitas bolinhas, muitas... 2...4...8...16...32...64... Mais... Mais e mais, milhares de células... Eu estou deslizando por um túnel, que desce por uma parte mais larga, mais aberta... Agora vejo uma caverna. Ela é de cor rosa avermelhada, forrada por um tecido esponjoso... Fofo, macio... Eu caio nesse tecido, e fico agarrada nessa parede... Enquanto isso a multiplicação continua... Ela tem a mesma velocidade incrível, espantosa!... Não tenho mais noção de tempo... É como se ele não existisse...
Eu sou uma semente de vida crescendo, crescendo... Aquela energia do Princípio da Vida está agora multiplicada ou dividida, não se direito, em milhares e milhares de pontinhos de vida... As minhas células... É fantástico!... Obedecendo àquele código, elas vão se organizando... É como se soubessem o que devem fazer... É perfeito, tão perfeito!... (Luíza chora, emocionada)... Elas estão formando um fio longo... Na ponta desse fio longo tem células cinzentas... é o meu cérebro...
Tem um outro grupo de células, bem vermelhinho, que começa a fazer um barulho: tum... tum... tum...É o meu coração... Outros órgãos estão se formando, parece tudo tão rápido! É o sangue fluindo...
            Também existe trabalho lá fora... Tem um outro tubo fino, que vai da minha barriga para fora... O sangue passa rápido dentro dele. Leva detritos lá para fora... Também me ajuda a respirar... Lá fora, aquele tecido que parece esponja está crescendo... Em volta, agora, tem água, uma água azulada, não muito transparente...
Lá fora existem ruídos, barulho de barriga, de alimentos sendo digeridos... É o estômago de minha mãe funcionando... E tem aquele tum... É o coração dela batendo... Ela está tranqüila, eu também... Ela conversa muito com meu pai... Eles têm dificuldades financeiras.... Mas estão juntos... E... Eu estou crescendo tranqüilamente.
_Existe mais alguma coisa que você queira perceber?
_Indaguei, retomando a indução, após sua regressão espontânea à vida intra-uterina. Há algo em relação ao nascimento que precise ser trabalhado?
_Se eu olhar adiante, o nascimento também parece tranqüilo... A sensação que eu tenho agora é de que não há mais nada a ser percebido. Estou me sentindo bem... Acho que já posso voltar.
_Então, gradativamente, perceba-se sendo a Luíza, uma só pessoa, adulta, com sua energia totalmente reintegrada e bem distribuída pelo corpo, até abrir os olhos novamente, como se estivesse acordando! Induzi, aguardando o seu movimento de retorno ao estado de vigília... Como foi para voe viver essa experiência?
_Eu fui à vida intra-uterina: É possível isso? Será que não imaginei toda essa história?... Mas, tudo parecia tão real!... Tão verdadeiro!... Exclamou Luíza, ainda aturdida com a experiência por que passara.
Em visão holística, costumamos dizer que o dentro e o fora são a mesma coisa. Tudo se interliga! Mas ao mesmo tempo, a consciência, que funciona no plano da dualidade, necessita compreender e integrar as experiências vividas. Sua experiência foi real para você. Ela é a sua representação interna da sua concepção, e esta é uma representação bonita. Exprime as sensações e os sentimentos que foram registrados por você, em relação a esse momento da sua evolução. É também o seu simbolismo em relação à sua vinda a este mundo. No sentido emocional, o que ela significou para você?
_Foi lindo! Creio que jamais esquecerei essa história. A sensação de ser pura energia; a sensação de vida fluindo; o amor de meus pais. Eu senti a segurança de nascer num lar estável, fruto de um relacionamento afetivo bem sólido! Creio que isto é o mais importante para os filhos. Pelo menos, é importante para mim. Foi incrível! Será que realmente o espermatozóide que fecunda o óvulo é aquele que tem um código semelhante? Que tem afinidade energética com o óvulo? Achei isso tão bonito, também!...
Esta é a abertura conceitual, que estamos empenhados em promover. Diante do pré-suposto de um Módulo Organizador Bioplasmático, pré-existente ao corpo físico, faz sentido que a escolha do espermatozóide que fecunda o óvulo não seja uma escolha aleatória, mas o resultado seletivo das características mais adequadas às experiências evolutivas do ser que vem ao plano da matéria. Isso joga por terra o conceito de “acidente” genético. Segundo esta perspectiva, a má formação genética é a manifestação física da energia mal qualificada por um ser evolucionante. Este novo enfoque abre perspectivas para muitas pesquisas, mas é fundamental o alargamento do enquadre científico. Enquanto nossa ciência oficial estiver restrita pelo pensamento cartesiano, pouco ou nada, iremos avançar neste campo, onde muitos fenômenos ainda aguardam explicações.
Mudando de assunto, sinalizei para Luíza o término da sessão. A experiência fora extremamente mobilizadora e como não é adequado que se realize mais de uma técnica hipnótica por vez, havíamos usado o tempo restante com as necessárias elaborações, em relação ao ocorrido.
Tecnicamente, eu sabia que teríamos que retornar à infância para dar continuidade ao fechamento e ressignificação de possíveis experiências traumáticas, ainda mantidas sob o véu da inconsciência. Algumas sessões adiante, Luíza reviveu outra situação significativa:

                                                          SUELI MEIRELLES
Email: suelimeirelles@gmail.com


domingo, 17 de junho de 2018

RECEITA DE CAMPEÃO - Cidadania


            Historicamente, em tempos de Copa, preparativos concluídos, o Brasil inteiro se colocava a postos para torcer... E GANHAR! A cada gol, o país inteiro explodia de alegria. Ali, naquele instante, descobríamos o espírito do vencedor. Nada menos do que isso, pois não aceitávamos desculpas, por nenhum deslize, por menor que fosse... Mas os tempos mudaram e o brasileiro amadureceu. Hoje, não temos motivos para comemorar, mas a lição contida no esporte mais praticado no Brasil permanece.
Podemos perguntar: _ O que faz um campeão? Quais são os requisitos básicos para que sejamos vencedores, no futebol ou na vida? Qual é a receita do sucesso? Talvez, se descobrirmos como conseguimos ser campeões em Futebol, possamos dar um jeito neste país, em nosso estado, em nossa cidade, em nossa casa... Em nós mesmos, acabando com tantas insatisfações, que nos atormentam a vida diária. Então, vejamos os passos que transformam um cidadão comum num campeão:

1.    Um campeão conhece o seu talento; aquilo que ele é capaz de fazer com amor, com facilidade e prazer; a sua maior habilidade; ele tem auto-estima;

2.    Um campeão desenvolve esta habilidade, treinando-a, aprimorando-a com persistência e dedicação. Para isso, ele tem um técnico, um professor que o orienta, e dele extrai o melhor desempenho. Nesta primeira etapa, o campeão tem humildade para aceitar as críticas de forma construtiva, sabendo que elas contribuem para o seu desenvolvimento;

3.    Um campeão conhece a sua área de atuação, o seu campo, e a posição em que seu desempenho é melhor. Ele tem espírito de equipe, para se articular com outros jogadores do seu time (aqueles que buscam a mesma meta), dividindo tarefas; treinando estratégias em conjunto, para fortalecer a defesa e o ataque;

4.    Um campeão observa o adversário, compreendendo-o, sem subestimar a sua capacidade de reação; desenvolvendo estratégias para ultrapassá-lo. Um campeão não fica paralisado pela insatisfação, combatendo sempre o mesmo adversário; ele não tenta modificar a maneira do outro jogar; ele a aceita e a ultrapassa, sempre disposto a enfrentar o próximo desafio;

5.    Um campeão tem uma meta, um destino, o ponto a onde ele quer chegar, com vontade e determinação, sabendo que sua trajetória será concluída, se ele tiver flexibilidade para contornar os adversários, que surgem a cada momento. Ele sabe lidar com imprevistos e aproveitar as oportunidades que se apresentam, colhendo feedback, a cada momento, do que o aproxima ou afasta da própria meta.

6.    Um campeão tem uma alta tolerância à frustração, para aceitar as vaias da torcida, quando comete erros, as pressões da mídia que polemiza, a falta de reconhecimento e gratidão, por todas as vezes que acertou. Ele sabe que o sucesso é frágil e temporário;

7.    Um campeão, ao fazer um gol - minuto fugaz de glória - se realiza, certamente; porém sabendo que, alcançada a meta, tudo começa outra vez, para a conquista de mais um ponto, no placar;

8.    Um campeão sabe que o gol é apenas a culminância de um árduo trabalho de construção, que começou há muito tempo atrás, e que este é um momento solitário, em que ele precisa aceitar que nem todos compartilhem do seu sucesso;

9.    Um campeão é aquele que descobriu que o gosto da vitória é pré-anunciado em cada passo de toda a trajetória de conquista, e que para ser vitorioso não é preciso apenas saber a onde se quer chegar; ser vitorioso é saber caminhar...

Desejamos, que o nosso talento futebolístico, neste momento presente, possa ser transferido para nossas vidas. Que tenhamos essa consciência de unidade, como brasileiros, para que, plenos do espírito de vitória, com determinação, garra e alegria, possamos acordar para a vida, o campeão adormecido no berço esplêndido, que existe dentro de cada um de nós... Vai, Brasil!...Você pode!

Compartilhe e ajude a promover a mudança de mentalidade!

                        (*) Sueli Meirelles - Torcedora Brasileira, em Nova Friburgo, 17/06/18
Site: www.suelimeirelles.com
Email: suelimeirelles@gmail.com
Whatsapp: (22) 999.557.166



sexta-feira, 15 de junho de 2018

O DIA EM QUE AS MULHERES ENTRARAM EM GREVE - Conto


            João acordou no horário habitual, para trabalhar. Seria um dia como outro qualquer, não houvesse algo de estranho no ar, a começar pela expressão de Maria, já desperta, mais ainda recostada na cama. Seus olhos tinham um brilho intenso, acompanhado por um sorriso enigmático e ligeiramente divertido.
            Sem dar mais importância ao detalhe, João entrou no banheiro, para a sua higiene matinal. Ao sair, Maria continuava recostada sobre o travesseiro, absorta com as mensagens virtuais. Incomodado com a postura dela, João disparou o comando para que ela tomasse a iniciativa de sua rotina habitual, colocando tudo no seu devido lugar:  _ Vamos tomar café?
            Maria olhou para ele, com seu olhar brilhante e sorriso enigmático e respondeu: _ Querido, bom café para você! Hoje é meu primeiro dia de greve!
            _Greve de que, se você é Dona de Casa?
            _Por isso mesmo! Respondeu ela. E continuou: _Quando é que Dona de Casa se aposenta?
            Nunca!!! Respondeu João automaticamente. Desde que o mundo existe é assim!... É a ordem “natural” das coisas! As mulheres nasceram para cuidar da casa, do marido e dos filhos!
            _E você acha isso justo? Perguntou ela.
            Pensando que talvez Maria estivesse “naqueles dias” de mau humor, João decidiu sair de casa mais cedo e tomar café na lanchonete perto do escritório, onde uma simpática e atenciosa garçonete o servia com presteza... Seguindo de carro pela avenida principal, viu alguns grupos de homens em conversas agitadas pelas esquinas. Embora achasse estranho, não deu muita atenção ao fato. João se orgulhava de ter foco e objetividade. Ao chegar à lanchonete, estranhou que, diferente do habitual, só houvesse homens no recinto e a simpática garçonete não estivesse lá. Quando o garçom veio atendê-lo, perguntou pela moça.
            _Ela hoje está em greve! Respondeu o garçom, com um sorriso irônico.
            Tal resposta provocou certo desconforto no estômago de João, mas de imediato, avistou um amigo entrando na lanchonete e fez-lhe sinal para vir sentar-se à sua mesa.
_E aí! Tudo bem? Indagou.
_Tudo bem como, cara! Minha mulher parece que ficou maluca! Acordou hoje, pela manhã, dizendo que está entrando em greve!
            GREVE!!! Soou o alarme dentro do João, provocando-lhe taquicardia. Neste momento, um dos homens no grupo da mesa ao lado, levantou-se e falou para os demais presentes: _ Algo de muito errado está acontecendo, hoje! Descobrimos que nossas mulheres entraram em greve. Vejam que absurdo! Parece que combinaram pelo Whatsapp. A campanha está viralizando nas Redes Sociais!...
            _ Mas o que elas estão reivindicando? Perguntou João.
            _Amigo! A lista é enorme e ridícula! Estão exigindo salários por cada uma das tarefas desempenhadas em casa: Cozinheira, lavadeira, arrumadeira, enfermeira, babá, administradora, contadora, economista, mediadora de conflitos familiares... Algumas mulheres mais radicais estão reivindicando também pagamento pelas horas dedicadas ao sexo. Que coisa mais estapafúrdia!!!
            _Mas eu pago faxineira! Argumentou o homem sentado numa mesa mais distante. O orador continuou, mostrando-se bem informado sobre o movimento grevista feminino:
            _ Elas dizem que os serviços prestados por terceiras podem ser descontados da lista. As que trabalham fora, estão argumentando que este termo “trabalhar fora” é discriminatório e evidencia a sobrecarga do trabalho feminino. Dizem que trabalham fora, dentro, à direita, à esquerda, em cima, em baixo (rrss)!... As mulheres piraram de vez! As provedoras, argumentam, ainda, que nunca deram despesas para os seus maridos, inclusive em relação aos planos de saúde dos filhos, descontados em seus contra-cheques. Também sinalizam os excelentes presentes de Natal, aniversário, Dia dos Namorados, partilha de despesas de jantares e viagens. Muitas alegam que sustentam a casa e os maridos. Diante das novas informações, o alvoroço na lanchonete generalizou-se pelos presentes, evidenciando forte indignação.
            _Que coisa maluca! Só quero ver quanto tempo vai durar isso! Resmungou para si mesmo, um senhor sentado numa mesa isolada. Já havia algum tempo ficara viúvo e morava só, fazendo ele mesmo suas tarefas domésticas, por conta dos parcos recursos da aposentadoria. Sentia-se a salvo do problema...
            Enquanto a notícia ia-se espalhando pela cidade, os aturdidos cidadãos descobriram, através do noticiário (masculino) de plantão, que o movimento havia tomado proporções nacionais e começava a expandir-se para outros países, principalmente os países latinos e muçulmanos, onde a cultura machista predominava.
            Ainda confusos e sem terem organizado um consenso em termos de ações repressivas em relação à “Greve de Mulheres”, os homens decidiram seguir para seus locais de trabalho, com a expectativa de que, à noite, tudo houvesse voltado ao “normal”, com possibilidade de pazes entre os lençóis perfumados com alfazema... Mas não foi o que aconteceu. Parece que não havia ninguém para perfumar os lençóis com alfazema... Ao chegar à casa, João encontrou Maria servindo o último alimento no jantar das crianças, que animadas, esperavam Mamãe, alegremente, para novas brincadeiras. As grevistas haviam combinado entre si, que os serviços essenciais devidos às crianças, idosos e doentes seriam mantidos. Desconhecendo esse detalhe, João respirou fundo e ainda segurando a sua irritação, saiu do apartamento em busca de algo para comer na rua. Neste momento, temeu que o restaurante mais próximo não tivesse um cozinheiro homem. Era só o que faltava acontecer!...
            Em represália ao abuso, João resolveu dormir no sofá da sala e nele permaneceu durante a semana em que a greve continuou. Até o oitavo dia, quando percebeu que suas roupas de trabalho estavam amontoadas na área de serviço e que não havia mais cuecas para trocar... Neste momento sua boca explodiu em palavrões. Falou todos que conhecia e inventou mais alguns, tamanha era a sua raiva. Decidiu vestir a mesma roupa do dia anterior, juntando as demais num saco de lixo, para deixar na lavanderia. Quando lá chegou, o dono o informou que não poderia receber suas roupas porque a duas funcionárias também estavam em greve e ele não sabia como ligar as máquinas.  Retornando com sua trouxa de roupas sujas ao carro, João lembrou-se de que, em casa, nunca havia ligado a máquina de lavar, tarefas habituais de Maria e da faxineira. Como fazer? Ele não poderia ficar indefinidamente sem trocar de roupas. Será que o manual de instruções da máquina ainda estaria em alguma gaveta? Mas quem organizava todos os papéis e documento da casa era Maria... Será que Maria estaria disposta a ensiná-lo a usar a máquina de lavar? Sentiu-se humilhado com a situação e pensou em outra estratégia: _Quanto ela poderia cobrar se ele lhe propusesse pagar pelo serviço?... Mas não teve coragem de lhe propor, esperando que a situação ainda se resolvesse por si mesma.
            Chegando à casa, com as roupas sujas, João viu que Maria brincava com as crianças, enquanto a máquina lavava as roupas dela e dos menores. Pura discriminação! Pensou, ressentido. Para onde foram as juras de amor e os votos de fidelidade na riqueza e na pobreza? Para seu maior desconforto, a greve havia chegado, também, ao leito conjugal... Indignado e convicto de suas razões pessoais, João considerou que não havia mais clima para a manutenção de nenhum tipo de voto e decidiu ir dormir num Motel. Precisava espairecer e se divertir um pouco. Mas, para seu total desespero, as prostitutas também haviam aderido à greve. Alegavam que seus corpos mereciam respeito e não mais seriam usados como vasos de esperma. Protestavam contra os abusos sexuais na infância, alegando que esses traumas às conduziram às ruas. O dono do prostíbulo, já bastante calvo, arrancava seus últimos fios de cabelo, gritando, desesperado: _Estou completamente falido!!!!
            Passados quinze dias, João viu emergir, à sua volta, uma série de imprevistos que nunca havia imaginado: Maria decretara que o banheiro da suíte seria para o seu uso e o das crianças. No banheiro social, a toalha sempre úmida, contava os dias em que permanecera ali, sem sequer tomar sol ou ser trocada. As roupas de cama, jogadas no sofá da sala, onde agora dormia, não estavam em melhores condições, com a fronha do travesseiro amarelada pelo suor do seu rosto. Enquanto isso, a  ‘Greve de Mulheres” continuava firme e forte. A Primeira Dama, “Bela, Casta e do Lar”, também decidira aderir ao movimento, assim como as esposas e amantes de todo Congresso Nacional. Sentindo-se pressionado, o Presidente Temeroso, com olheiras profundas e um terno surrado, por conta da greve de suas assessoras femininas, fez um pronunciamento em cadeia nacional, propondo ceder às reivindicações. Afinal, segundo seus também temerosos assessores, a população feminina era maioria, com menor índice de analfabetismo do que o masculino e muitas delas, financeiramente independentes e provedoras de família[1]. Como haviam deixado isso acontecer?... A situação, agora, estava totalmente fora de controle!
            Vereadoras, Deputadas e Senadoras preparavam Projetos de Leis para a promoção do equilíbrio entre o masculino e o feminino; entre o prover e o cuidar dentro de cada ser humano, para por fim a Guerra dos Sexos, com base no livro do mesmo nome, de autoria do Psicólogo Frances Pierre Weil, felizmente disponível para todas, em PDF[2]. Para dar suporte ao movimento, as parlamentares decidiram também criar “Círculos de Mulheres” em cada cidade, como fóruns para a síntese das principais questões emergentes: A principal bandeira era a aposentadoria efetiva para todas as Donas de Casa, aos 70 anos, criando estruturas sociais que dessem suporte à proposta de acabar com o modelo social desumano, que forçava mulheres idosas a cuidarem de suas casas, enquanto se agüentassem de pé. Havia muitos conflitos a serem mediados[3]. Começaram a estudar e criaram uma Biblioteca, com livros pertinentes ao assunto. Realmente, a vida nunca mais seria como antes. As mulheres haviam aprendido a prover e os homens precisariam, urgentemente, aprenderem a cuidar... Inclusive de si mesmos!
            João acordou meio tonto, no meio da noite, sentindo a boca seca e o coração palpitante. Para seu espanto, percebeu que Maria dormia tranquilamente ao seu lado, na mesma cama. Não compreendeu. Quando chegou à cozinha, olhou para a área de serviços e viu suas roupas no secador, como de hábito. Percebeu que havia tido um pesadelo. Um terrível pesadelo, diga-se de passagem!... Passou o resto da noite insone, refletindo sobre o acontecido.
            Ao amanhecer, levantou-se devagarzinho, para não acordar Maria... Depois da higiene pessoal, preparou o café, colocou numa bandeja, não sem antes acrescentar uma pequena e singela flor, numa jarra-tulipa, deixando tudo na mesinha ao lado dela. Viu que ali havia também livros que nunca percebera. Entre eles, O Fim da Guerra dos Sexos, de Pierre Weil[4]... Teria tido um sonho premonitório? Pensou. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha dorsal... Não teve coragem de acordá-la. Qual seria a sua reação quando despertasse? Qual será a reação de todas as mulheres, quando despertarem?... Este pensamento fez João estremecer, numa sucessão de sensações, características do surgimento de um novo estado de consciência...  Foi para o trabalho, mas, a princípio, não comentou nada com seus amigos. Por enquanto, era um segredo bem guardado no seu coração. Iria começar a falar com eles, aos poucos. Seria um pioneiro, pois percebera que os privilégios masculinos estavam chegando ao fim. Passou a prestar mais atenção ao modo como Maria fazia as coisas. Começou a aprender com ela e a chamar seu filho mais velho para colaborar. Começou a perceber que também no escritório, o cuidar ia-se infiltrando.[5] Gradativamente compreendeu que não era exatamente um pesadelo, mas um processo de transformação social justo e evolutivo. João sentiu-se emocionado e constatou que havia despertado dentro de si mesmo a capacidade de cuidar... Agora, era um Ser Humano Inteiro! Assim como Maria também aprendera a prover. Percebeu que agora estavam mais unidos do que antes e que, cada um por seu lado, havia desenvolvido mais entendimento sobre as necessidades do outro. Isto os aproximava e permitia que compartilhassem interesses em comum. João e Maria criaram um Círculo de Casais, com o objetivo de por fim à Guerra entre os Sexos, com reuniões mensais, cada vez mais concorridas e bem humoradas, onde muitos outros casais descobriam novas facetas de si mesmos. Como medida de segurança para o projeto, a cada novo grupo, este conto era distribuído para despertar a consciência evolutiva e não mais haver necessidade de “Greve de Mulheres”...

                                    Sueli Meirelles, em Nova Friburgo, 15 de Junho de 2018.

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                                       Professora, Pesquisadora e Especialista em Psicologia Clínica (UGF_1986) MBA em Gestão de Projetos. Consultora em Desenvolvimento Humano, Saúde Integral, Ecologia Integral e Educação para a Paz. Escritora e Palestrante. 
Wahtsapp: 55 22 999.557.166


quinta-feira, 7 de junho de 2018

FAMÍLIAS VIRTUAIS - Comportamento


                Em constante processo de mutação, nossa sociedade literalmente entrou no mundo virtual, trazendo-nos novos e mais complexos problemas de comportamento. Sem que nos déssemos conta das conseqüências imediatas, mergulhamos nas Redes Sociais, mantendo contatos em tempo real, mesmo estando em diferentes pontos do planeta. Fenômeno de globalização!... Maravilhados com as novas tecnologias ao nosso dispor, não paramos para avaliar os prós e contras dessas novas ferramentas de comunicação.
                Quando nos tornamos conscientes dos processos decorrentes da Transição Planetária em tempos de desconstrução civilizatória, percebemos a dissolução da maioria das famílias nucleares, o encarecimento do custo de vida, a ampliação induzida da necessidade de consumo, o surgimento de novas configurações familiares e a aceleração do tempo, criando um novo sistema de Redes Familiares, constituída por padrastos, madrastas, enteados, enteadas, ex-maridos, ex-esposas, avós afetivos, sem vínculo consangüíneo, avós, pais e mães consangüíneos, fisicamente distantes, agora conectados, em tempo real, que tentam gerenciar a vida de seus entes queridos e inacessíveis ao toque físico, como Drones monitorados à distância. Como toda situação tem dois lados, país e mães provedores, que criam seus filhos sem a presença do cônjuge, também monitoram seus filhos em casa ou na creche, a partir de seus ambientes de trabalho, o que os deixa mais despreocupados, em relação ao que possa estar ocorrendo com os pequenos. Em muitos casos, as ligações poderão ocorrer em momentos inoportunos, que irão interferir na logística do contexto real,  tais como horários de refeições, banho, sono... Interferindo em especial, na função de autoridade de possíveis cuidadores presenciais.
                 Tal configuração provoca a emergência de questões objetivas e legais, em termos de cuidados com os idosos e crianças. Neste novo contexto, emergem os conflitos parentais, os sentimentos de culpa gerados pela ausência real, muitas vezes compensado pelo acúmulo de presentes que passam a ocupar o espaço do melhor presente: A presença física e o convívio diário; emergem, também,  os sentimentos de insegurança, baixa-estima e inferioridade, que motivaram as situações de negligência parental, no passado e deixaram sequelas nas relações familiares; emergem as mágoas e ressentimentos decorrentes desses históricos de vida, conflitos que somente podem ser perdoados e dissolvidos, através das técnicas terapêuticas de autoconhecimento, para que o passado não interfira no presente e possa realmente ser deixado para trás.
                 Os aspectos legais decorrentes dessa nova configuração exigem atenção e discernimento em relação aos papéis sociais da paternidade e paternagem, bem como da maternidade e maternagem: Enquanto paternidade e maternidade são relações consangüíneas, a paternagem (figura parental de apoio, lei e limite, no mundo externo) e a maternagem (figura parental de cuidado e acolhimento) somente poderão ser exercidas por aqueles que estejam fisicamente presentes e próximos, em termos de tempo-espaço. Como socorrer a criança ou o idoso que se machucou num tombo, estando a quilômetros de distância? Como preencher o sentimento de solidão e abandono do idoso? Como acolher e acalmar a criança que acorda durante a noite, por conta de um pesadelo, muitas vezes também ocasionado pelos muitos jogos virtuais aterrorizantes? Como tirar fotos juntinhos, no dia do aniversário? Como abraças e beijar? Como construir as memórias dos bons momentos compartilhados? Para tornar a questão ainda mais complexa, legalmente, é responsável pela criança ou pelo idoso, o adulto que esteja cuidando deles, física e presencialmente. Em muitas situações, isto coloca as crianças e os idosos sob o comando de diferentes adultos, com diferentes visões de mundo, cada um querendo gerenciar a situação do seu modo, tornando as relações familiares confusas. Em especial para as crianças, significa receberem diferentes mapas, com diferentes informações oririentacoes  sobre a mesma realidade. Qual seguir!?...
                Mais uma vez, em tempos de Transformações, esses são temas sobre os quais precisaremos refletir e construir, com muito diálogo, novas regras de comportamento, que irão fundamentar a nova sociedade que está nascendo!... Vamos tecendo o Novo Tempo!

                                            Sueli Meirelles, em Nova Friburgo, 07 de Junho de 2018.

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