Tradução

terça-feira, 8 de maio de 2012

DE ONDE VEM O MAL?


“As coisas más que são feitas sobre a Terra,
 são praticadas por seres humanos.
Nós não podemos por a culpa disso nas plantas
Ou nos animais... Mas, se você
 e eu não somos maus, quem é mau?”
(Donovan Thesenga)

 Embora nossa cultura nos imprima uma visão dualista, segundo a qual as pessoas são totalmente boas ou más, não é isto o que ocorre dentro dos seres humanos. O bem e o mal coabitam em nosso interior, ocupando três camadas distintas: O Eu Idealizado (aquilo que queremos que os outros saibam que nos somos), o Eu Inferior (aquilo que não queremos que os outros saibam que nos somos) e o Eu Superior (aquilo que muitas vezes nem sabemos que nós somos).
 O Eu Idealizado corresponde à nossa personalidade, à máscara que utilizamos na vida em sociedade, na tentativa de sermos amados e aprovados por aqueles com quem convivemos, como se não pudéssemos existir, independentemente da opinião alheia, espelho através do qual buscamos a nossa auto-imagem idealizada.  Nosso Eu Idealizado luta, mente e esconde tenazmente os nossos defeitos, temendo a crítica e a desvalorização social, que imaginamos que irá nos atingir e nos abater, se nossos erros forem descobertos. Na tentativa de sustentar esta máscara, muitos de nós acabamos por conseguir justamente o efeito contrário, já que, em situações de alta pressão social, esta casca tende a se romper, colocando à mostra os defeitos, a tanto custo escondidos.
 O Eu Inferior corresponde a todos os aspectos de nossas personalidades que tememos que os outros venham a descobrir: Nele estão a inveja, a infidelidade, o orgulho, a vaidade, a negligência, a ganância, e todas as demais imperfeições humanas, sustentadas por sentimentos de raiva, medo, tristeza, dor, ódio, e que tanto mal fazem a própria humanidade. Apesar de estarem polarizados negativamente, e realmente causarem mal, estes defeitos constituem potenciais de energia psíquica igualmente úteis para o desenvolvimento humano. O grande segredo da transformação interior consiste exatamente em aceitarmos, dentro de nós mesmos estes sentimentos, conhecê-los nos contextos em que foram criados, para que possamos exercer sobre eles a força de vontade necessária para transformá-los em motivações para o nosso crescimento interior. O que dificulta este processo é justamente a idéia de que teremos que anular nossos desejos, para nos transformarmos em seres humanos insípidos, destituídos do prazer de viver e de usufruir tudo aquilo que a vida pode nos oferecer de bom. Esta é uma idéia distorcida sobre a evolução humana, que faz com que a transformação interior seja sentida como morte ou aniquilação de si mesmo. Na luta por combater estes fantasmas internos, acabamos percebendo-os em nossos semelhantes, o que origina as crises de relacionamento, nos diferentes níveis em que elas ocorrem, sejam no contexto familiar, profissional, social, nacional ou internacional.
 Quando nos abrimos corajosamente para o autoconhecimento, nossos fantasmas internos tornam-se menos ameaçadores, e podemos começar a não combate-los – o que seria simplesmente inútil - mas a compreendê-los em suas necessidades e a atender a essas necessidades, através de comportamentos mais construtivos, gradualmente desenvolvendo novos valores de vida.
 Quando descobrimos a coragem de empreender a travessia dos pântanos da nossa alma, descobrimos o caminho para o Eu Superior, onde o melhor de nós mesmos nos aguarda, como um prêmio pelo esforço empreendido. A descoberta dessas qualidades já desenvolvidas funciona como estímulo e apoio para a decisão de continuarmos o processo de transformação do Eu Inferior, pouco a pouco somando estes potenciais recém-transformados àqueles recém-descobertos, até que todo este potencial positivo recém-agregado impulsione cada um de nós para a manifestação exterior daquilo que realmente viemos ser. Encontrar a missão existencial traz-nos o prazer da realização pessoal, sem a qual todas as conquistas tornam-se satisfações passageiras, que o ego deixa para trás, em busca de novas metas ilusórias. Ao contrário do que pensávamos antes, a descoberta do Eu Superior nos religa com a verdadeira paz interior e com o verdadeiro prazer de viver, agora livre das ameaças inconscientes de sermos descobertos, a qualquer  momento, em nossas fantasias de sermos perfeitos, segundo os modelos culturais que nos foram transmitidos.
 Quando descobrimos que não somos nem maiores nem menores do que aquilo que realmente somos, do ponto de vista evolutivo, podemos objetivamente, combater o mal, não no mundo à nossa volta ou nos nossos semelhantes, mas naquela parcela de mal pela qual somos responsáveis, através de nossos próprios comportamentos. Ao mesmo tempo em que desistimos de mudar o mundo a nossa volta, percebemos que podemos mudar o nosso mundo interior, reativando uma força amorosa e contagiante de acolhimento àqueles que se dispõem a esta difícil travessia para o mundo melhor que todos nós desejamos.

(*) SUELI MEIRELLES = Psicóloga Clínica do CIT – Colégio Internacional de Terapeutas
Site: http://www.institutoviraser.com/

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